Todo ano, a Igreja Católica celebra o dia 29 de setembro como a Festa dos santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos. Para muitos católicos de hoje, essa festa passa quase em branco e é tratada como uma data menor do calendário litúrgico. O antigo nome inglês, Michaelmas, se ainda é lembrado, fica mais como um velho costume de estação do que como a festa com que a Igreja latina marcava a entrada do outono. A cultura católica moderna costuma ver a devoção a Miguel, Gabriel e Rafael como uma tradição mais medieval, como se servisse só para as imagens e para rezar em particular, e não para a fé em si.
Nem sempre foi assim. Os arcanjos ocupam um lugar central na fé católica porque a Sagrada Escritura nomeia cada um deles e descreve o trabalho que fazem. O ofício deles é servir a Cristo e levar as almas até Ele. Por isso a Igreja os honrou desde os primeiros tempos. Mais tarde, os calendários, os dias de jejum e as festas nacionais ampliaram essa devoção e transformaram em costume público o que a Igreja já vinha praticando há muito. Durante séculos, a Dedicação de São Miguel Arcanjo foi uma festa principal de outono na Igreja Católica. Hoje é celebrada como Festa dos santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos. O calendário atual ainda guarda o 29 de setembro como a festa de Miguel e dos outros arcanjos, mas quase se perdeu tudo o que antes acompanhava esse dia: a preparação, a honra pública e as práticas do povo.
Os arcanjos na Escritura e no Catecismo
A devoção católica a esses três arcanjos não nasceu do nada nem de uma superstição popular. Tem sua raiz na Sagrada Escritura.
São Miguel Arcanjo, Príncipe da Milícia Celeste
O nome Miguel vem do hebraico antigo, Mīkhāʾēl, que significa “Quem como Deus?”. No uso hebraico, essa pergunta não fica em aberto. Espera a resposta “ninguém”. Por isso a tradição cristã trata o nome como um grito de guerra contra o orgulho, sobretudo contra o desejo de Lúcifer de ser como Deus.
No Livro de Daniel, Miguel aparece combatendo por Israel contra os poderes inimigos, os príncipes da Pérsia e da Grécia. (Daniel 10,13.20) Mais adiante, no mesmo livro, aparece como o grande príncipe que se põe ao lado do povo de Deus. “Naquele tempo, surgirá Miguel, o grande chefe, o protetor dos filhos do seu povo.”. (Daniel 12,1) A Carta de Judas o chama de “o Arcanjo” e lembra a disputa dele com o diabo pelo corpo de Moisés. (Judas 9) O Livro do Apocalipse descreve o ofício dele na guerra contra o dragão: “Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos”. (Apocalipse 12,7-9) Miguel defende o povo de Deus porque Deus lhe confiou essa missão.

São Gabriel Arcanjo, mensageiro de Deus
O nome Gabriel vem do hebraico antigo, Gavrīʾēl, que significa “Força de Deus”. Em Daniel, ele é enviado para explicar as visões. (Daniel 8,16; 9,21-23) No Evangelho de Lucas, está na presença de Deus e é enviado primeiro a Zacarias, para anunciar o nascimento de João Batista, e depois a Maria, para anunciar a Encarnação. A saudação dele a Maria, em Lucas 1,28, é o começo da oração da Ave-Maria: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo”.
Gabriel não fala por autoridade própria. Leva com fidelidade a palavra de Deus. O mistério central da nossa fé, a Encarnação do Filho, chega ao mundo por esse anúncio.

São Rafael Arcanjo, medicina de Deus e companheiro dos viajantes
O nome Rafael vem do hebraico antigo, Rəfāʾēl, que significa “Deus cura”. A história dele está no Livro de Tobias. Acompanha Tobias numa viagem longa. Ajuda-o a pescar um peixe às margens do Tigre. Com o coração e o fígado do peixe, expulsa o demônio que atormentava Sara. Com o fel, devolve a vista ao pai, Tobias. Quando termina a missão, dá-se a conhecer: “Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos na presença do Senhor”. (Tobias 12,15)
Dois versículos depois, deixa clara a missão: “A paz seja convosco: não temais. Quando eu estava convosco, eu o estava por vontade de Deus: rendei-lhe graças, pois, com cânticos de louvor”. (Tobias 12,17-18)

O Catecismo da Igreja Católica deixa clara a doutrina sobre os anjos. “A existência dos seres espirituais, não-corporais, que Sagrada Escritura chama habitualmente de anjos, é uma verdade de fé”. (CIC 328) “Como criaturas puramente espirituais, são dotados de inteligência e de vontade: são criaturas pessoais e imortais. Superam em perfeição todas as criaturas visíveis. Disto dá testemunho o fulgor de sua glória”. (CIC 330) “Cristo é o centro do mundo angélico. São seus os anjos: ‘Quando o Filho do homem vier em sua glória com todos os seus anjos…’. São seus porque foram criados por
e para Ele”. (CIC 331) “Em sua Liturgia, a Igreja se associa aos anjos para adora o Deus três vezes Santo; ela invoca a sua assistência […], Além disso, festeja mais particularmente a memória de certos anjos (São
Miguel, São Gabriel, São Rafael, os anjos da guarda)”. (CIC 335)
Os arcanjos são venerados porque dão um exemplo claro de humildade e de serviço ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. O poder e a dignidade deles vêm de se entregarem por inteiro a servir a Cristo. Sempre apontam para o céu e nunca buscam a glória para si.
A devoção aos arcanjos
A veneração dos anjos remonta ao tempo dos Apóstolos: basta ler Lucas, Judas e o Apocalipse. Esses textos os apresentam como mensageiros, protetores e defensores do poder de Deus. Cumprem com fidelidade a vontade de Deus ao longo dos séculos.
De fato, a devoção aos anjos nos primeiros séculos era tão viva que o Concílio de Laodiceia, no século IV, teve de corrigir os cristãos da Ásia Menor sobre o lugar que cabe a eles na hierarquia divina. O cânon 35 do concílio diz: “Os cristãos não devem abandonar a Igreja de Deus, ir embora, invocar os anjos e reunir assembleias, coisas que são proibidas. Portanto, se alguém estiver metido nessa idolatria encoberta, seja anátema; porque abandonou nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, e passou à idolatria”. Em outras palavras, os cristãos não podem deixar a Igreja de Deus para invocar os anjos num rito particular, como se os anjos fossem mediadores no lugar do Filho. Os anjos servem a Jesus Cristo, que com o Pai e o Espírito Santo é o único Deus.

Já no século IV, no Oriente cristão, havia igrejas dedicadas a são Miguel. Logo ao norte de Constantinopla, o Michaelion foi um lugar de peregrinação popular por quase mil anos. Sozomeno, que escreve no século V, descreve as multidões e as curas milagrosas que se contavam lá, inclusive uma que, segundo conta, ele mesmo recebeu. No Egito copta nasceu uma devoção muito viva a Miguel. Chegaram a comemorá-lo todos os meses no calendário.
No século VI, são Gregório Magno explicou os ofícios dos arcanjos nas Homiliae in Evangelia (34,8-9), onde diz: “Os que anunciam coisas menores se chamam anjos; os que anunciam as mais altas se chamam arcanjos. Por isso não se envia à Virgem Maria um anjo qualquer, mas o arcanjo Gabriel. Era justo que viesse um anjo dos mais altos, porque anunciava a maior de todas as notícias. Os nomes de cada anjo também indicam o que eles fazem. Miguel significa ‘Quem como Deus?’; Gabriel, ‘Força de Deus’; Rafael, ‘Medicina de Deus’”.
“E quando é preciso fazer algo que pede um poder admirável, envia-se Miguel, para que pela obra e pelo nome se veja que ninguém pode fazer o que Deus pode. Por isso aquele inimigo antigo, que por soberba quis ser como Deus, dizendo: ‘Subirei ao céu, erguerei o meu trono acima das estrelas do céu, me assentarei no monte da aliança, nos lados do norte, subirei acima das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo’ (Isaías 14,13-14), no fim do mundo fica entregue à própria força, a ponto de perecer no último castigo, e há de pelejar com o arcanjo Miguel”.

Origem da festa de 29 de setembro
A data da festa nasceu em Roma. Comemora a dedicação da Basílica de São Miguel na Via Salária, uns dez ou onze quilômetros ao norte da Cidade Eterna. O Sacramentário Gelasiano, um livro romano do século VII com as orações da Missa, já inclui uma festa de são Miguel Arcanjo no dia 29 de setembro. O Sacramentário Gregoriano, um século depois, chama-a Dedicação da Basílica de São Miguel Arcanjo, e alguns manuscritos acrescentam “via Salária”. Alguns autores posteriores associam a consagração da basílica ao papa Bonifácio II, por volta do ano 530. O prédio desapareceu por volta do século IX ou X, mas o título litúrgico se conservou como “a Dedicação de São Miguel Arcanjo” por mais de mil anos.
A Quaresma de São Miguel
A importância do dia 29 de setembro também se vê no modo como os católicos se preparavam para essa data.
A devoção conhecida como Quaresma de São Miguel vai da Solenidade da Assunção, em 15 de agosto, até a festa de são Miguel, em 29 de setembro. Os domingos não entram na conta dos dias de jejum, como acontece na Quaresma que antecede a Páscoa, e assim se completam os quarenta dias. Essa devoção honra ao mesmo tempo a Virgem Santíssima e são Miguel, porque os dois levam os fiéis a Cristo.

São Francisco de Assis guardou esse jejum. Na *Vida de São Francisco*, são Boaventura escreve que Francisco subiu ao monte Alverne para fazer uma quaresma em honra de são Miguel Arcanjo. As *Florezinhas de São Francisco* lembram que Francisco disse aos irmãos que se aproximavam os quarenta dias de jejum de são Miguel, e que acreditava ser vontade de Deus que guardassem o jejum naquele monte. Durante o jejum de 1224, perto da Festa da Exaltação da Santa Cruz, Francisco recebeu os estigmas.
Há uma forma mais breve de preparação, anterior ao costume dos franciscanos. As leis do rei Etelredo da Inglaterra, do ano 1014, mandavam um jejum de três dias a pão, água e ervas cruas antes da Festa de São Miguel. Todo cristão adulto devia confessar-se, participar descalço das procissões e dar aos pobres a comida que não ia comer. Nesses dias era preciso dispensar os servos do trabalho, para que eles também pudessem jejuar.
A Quaresma de São Miguel é um costume piedoso, não um preceito universal como a Quaresma da Páscoa. Ainda assim, continua sendo prova de que santos e governantes cristãos se preparavam para Michaelmas com jejum, porque viam nessa festa um dia que pedia essa seriedade.
Michaelmas no ano litúrgico
O sentido da festa também tem a ver com a época do ano. O dia 29 de setembro cai no fim da colheita em grande parte da Europa ocidental e no começo da metade mais escura do ano. Quando acabava o trabalho no campo e os dias ficavam mais curtos e mais frios, a Igreja celebrava uma festa dedicada ao protetor do povo de Deus. A Dedicação de São Miguel Arcanjo é o marco de outono do calendário litúrgico tradicional. Com ela se ensinava aos católicos a encerrar a colheita e a se pôr sob a proteção do arcanjo que nos lembra que é preciso ser humilde diante de Deus.
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A observância da festa na Europa ocidental
Na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda, Michaelmas foi festa de preceito durante toda a Idade Média. Também foi um dos quatro dias de trimestre, ou Quarter Days, junto com a Anunciação (25 de março), o Dia de São João (24 de junho) e o Natal (25 de dezembro). Eram os dias em que se pagavam os aluguéis, começavam ou terminavam os arrendamentos, se acertavam as contas e se contratavam os peões do campo. O ganso de Michaelmas vem dessa vida rural. Depois de cortar o cereal, soltavam-se os gansos no restolho para engordar.
Na Irlanda, a estação se chamava Fómhar na nGéanna, a colheita dos gansos. Cuid Mhichíl, “a parte de Miguel”, consistia em matar um animal e repartir a carne entre os pobres.

A Itália celebra a festa com procissões. Nas cidades e vilas dedicadas a são Miguel, saem as imagens do arcanjo com a espada cravada no dragão. A procissão é um ato público de memória e de súplica: pede-se ao defensor da Igreja que interceda por quem segue a Cristo. A gruta de Monte Gargano, onde se diz que são Miguel apareceu entre 490 e 493, continua sendo o centro da peregrinação italiana.

Na França, o grande centro é Mont-Saint-Michel. A abadia foi dedicada em outubro de 709, com a intenção de se ligar a Monte Gargano. Enviaram-se mensageiros a Gargano em busca de relíquias, para unir o novo santuário ao da Itália. A abadia normanda se tornou uma das grandes igrejas de peregrinação do norte da Europa. Durante todo o período medieval, os romeiros atravessavam a baía até o monte na maré baixa para honrar o Príncipe da Milícia Celeste.
O Sínodo de Mogúncia, em 813, fez da festa de 29 de setembro um dia festivo em todas as terras carolíngias. Carlos Magno a tratou como festa de preceito. Na Baixa Idade Média, invocava-se são Miguel como padroeiro do Império Germânico. Nas regiões de língua alemã, adivinhava-se o inverno que vinha pelo osso do peito do ganso de Michaelmas. Os imigrantes alemães levaram esse costume para a América, onde se conservou entre os alemães da Pensilvânia (Pennsylvania Dutch).
A Espanha já marcava a festa nos calendários visigodos e moçárabes. Essa observância já figurava no antigo rito hispânico, não só no calendário romano que chegou depois. Há igrejas espanholas muito antigas com o nome do arcanjo. A igreja monástica de São Miguel de Escalada, em Leão, foi reconstruída no século X por monges vindos de Córdoba. Em Navarra, o santuário de São Miguel de Aralar é, há séculos, um lugar de peregrinação na montanha. Até hoje se leva a imagem do arcanjo por muitas cidades e vilas para abençoar os campos e visitar os doentes. A festa de 29 de setembro encerrava as subidas ao santuário durante o verão.
Na tradição portuguesa, são Miguel Arcanjo é o guardião do reino. Vilas e cidades de todo o país celebravam feiras de outono de São Miguel nos dias em torno de 29 de setembro. Cronistas portugueses posteriores ligaram a Ordem de São Miguel da Ala a Afonso Henriques, afirmando que o arcanjo prestou ajuda na campanha de Santarém.

Os ritos e as datas locais mudavam. O essencial, não. Toda a cristandade reconhecia os arcanjos como servos de Cristo cujos nomes mereciam uma grande festa litúrgica.
Mudanças no calendário moderno
Em 1921, o papa Bento XV deu a Gabriel, no dia 24 de março, uma festa para toda a Igreja (a véspera da Anunciação) e a Rafael uma festa em 24 de outubro. Entre 1969 e 1970, com o Mysterii Paschalis de Paulo VI, as festas de Gabriel e de Rafael deixaram de ser celebradas em separado, e os dois nomes passaram para 29 de setembro. O título anterior, Dedicação de São Miguel Arcanjo, passou a ser Festa dos santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos. O Ofício Divino antigo de 29 de setembro já nomeava Gabriel e Rafael nos hinos, mesmo quando o título do dia se referia só à dedicação de são Miguel.
O dia 29 de setembro continua sendo festa dos três arcanjos. A festa segue no calendário, mas o problema é que a prática católica moderna costuma reduzi-la a mais uma data, em vez de vivê-la como a festa solene de outono que foi durante quase toda a história da Igreja latina.
Recuperar a prática
Miguel, Gabriel e Rafael fazem parte da fé católica porque Deus os deu a conhecer na Escritura e porque a Igreja os honrou na oração pública desde os primeiros séculos. Cada um, a seu modo, nos leva a Jesus Cristo. São Gabriel anuncia a Encarnação. São Rafael cura e acompanha quem vai a caminho de Deus. São Miguel defende a Igreja que Cristo fundou.
É preciso que os fiéis católicos romanos recuperem a prática tradicional que se vivia em torno desse dia. Quem puder guardar a Quaresma de São Miguel, que a guarde. É preciso ensinar às crianças os nomes dos três arcanjos e as missões que a Escritura lhes dá. O dia precisa ser vivido de verdade como festa: ir à Missa, receber a Eucaristia e pedir ao Príncipe da Milícia Celeste que guarde a Igreja.
A doutrina católica não pede que se deixem os arcanjos de lado. Esse esquecimento é um sintoma do nosso tempo. A Igreja nunca nos disse para ignorar os servos que Cristo envia. Sempre nos ensinou que eles nos levam a Ele, e que devemos viver de acordo com essa verdade.
São Miguel, São Gabriel e São Rafael, Arcanjos, rogai por nós!


